Portugal — o país onde o que se paga e o que se ganha são tão diferentes que nem parece que estão relacionados.

É comum a dicotomia entre quem paga e quem ganha: quem paga acha sempre muito; quem ganha, pouco. E assim será sempre. Quem está certo? Os dois — e isso é um verdadeiro problema, porque é muito difícil superar uma diferença quando ambas as partes têm razão.

A carga fiscal sobre o trabalho em Portugal é dantesca, quase obscena. E, como se isso não bastasse, há uma sucessão de custos escondidos que tornam o salário uma ficção cruel: custa muito a quem paga e chega mutilado a quem o ganha.

Primeiro, as contribuições e os impostos

Uma TSU com uns inacreditáveis 34,75% sobre o salário bruto, divididos entre o trabalhador (11%) e quem o emprega (23,75%). Um IRS retido na fonte que chega rapidamente aos 16% num salário de 2.100€, e a 7,2% num salário pouco maior do que 1.000€.

Só aqui, não é difícil chegar a mais de 40% de acréscimo — e isto se o salário for baixo, porque, se for alto, pode chegar aos 75%: um autêntico confisco.

Mas os custos de quem emprega vão bem além disso

Recebemos 14 salários por ano, mas não trabalhamos 365 dias. O normal será trabalharmos entre 215 e 220 dias por ano. Quer isto dizer que, na prática, se trabalhássemos seguido, ao fim de pouco mais de sete meses teríamos feito tudo o que dizemos fazer num ano. Fazendo grosseiramente as contas, isto representa um encargo de 35% do salário bruto. No exemplo acima, já iríamos em 75% (ou 110%).

E ainda faltam custos: o subsídio de refeição, o seguro de acidentes de trabalho, a medicina do trabalho, a formação profissional…

A conta que explica tudo

Se imaginarmos que um trabalhador que aufere 1.100€ — levando para casa 1.050€, já com subsídio de refeição — custa qualquer coisa como 2.150€ à empresa, percebemos porque é que ambos têm razão.

Só mais uma coisa: se a margem bruta da empresa for 40%, a entrada deste trabalhador, a ganhar pouco mais do que o ordenado mínimo, obriga a faturar muito mais para que a conta feche — bem antes de sequer o contratar.